domingo, 12 de maio de 2013

Eu, Marta e Maria





 “Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada”, disse Clarice Lispector. Ultimamente a exaustão é minha companhia diária. Ontem, ao chegar em casa após mais um dia exaustivo, desabei... Não sou tão forte quanto pensam. Às vezes, desabo. Porém, a vida não tarda em encontrar um jeito de me surpreender, me oferecer uma resposta e me reerguer. Neste sábado, atrasei-me para a aula de um curso que frequento na Fundação Lar Harmonia, então resolvi assistir uma palestra do evangelho. Dezenas de pessoas ali estavam escutando a apresentação de Isabel Guimarães, mas aquelas palavras eram pra mim...

“Enquanto caminhava, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Aproximou-se e falou: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!”. O senhor, porém, respondeu: “Marta, Marta! Tu andas inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.” (Lucas cap. 10, ver. 38  a 42).

Marta sou eu. Martas são todas as mulheres e homens que estão fatigados com tantas tarefas, com tantas preocupações, com responsabilidades excessivas. Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá... Martas somos nós, os perfeccionistas, os escravos do fazer sempre mais e sempre melhor. Ontem, quando desabei, foi mais que esgotamento físico e mental, foi por me sentir fora da minha vida... “Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária...”. Viver plenamente... Acho que foi isso que Jesus quis dizer. Acho que é disto que estou sentindo falta. Fruir a vida em todos os seus âmbitos, sem entregar-se às coisas efêmeras. Esta foi a escolha de Maria, que se permitiu parar para aproveitar o momento singular de sua vida. Marta, ao contrário, se privou daquela chance de ouvir o Mestre em razão de todos os serviços e responsabilidades que achava que tinha. Quando apenas uma coisa consome o maior tempo de nossas vidas, somos privados de viver todas as outras coisas que poderíamos conhecer, aprender, agregar, até dispensar, mas viver. E a privação é o antônimo da plenitude.

A Marta de hoje precisa estar em vários locais ao mesmo tempo, por isso não dispensa os recursos tecnológicos (mas não tem tempo para contemplar a natureza), não desgruda os olhos do telefone celular (mas não olha nos olhos de quem está a sua frente), tem que cuidar da casa e da aparência (mas descuida do seu mundo interior), falta-lhe tempo para dar conta dos inúmeros compromissos de trabalho (e para se comprometer com algo que requeira autodoação), está sempre preocupada em estar esquecendo alguma coisa (e de fato está esquecendo muitas...).

As Martas de hoje têm (ou já tiveram ou terão) hiperatividade, estresse, pânico, transtorno obsessivo compulsivo, hipertensão, diabetes, dependência química, ansiedade, fobias ou outros transtornos neuróticos. Porque toda pessoa precisa parar, respirar, dar limites, contemplar, conhecer-se, meditar, calar e ouvir. Permitir-se ser um pouco Maria. Eleger prioridades. Impor limites. Não se deixar contaminar pelo desequilíbrio alheio. Fazer algo que goste. Espiritualizar-se. Melhorar-se. Fruir a vida. Viver...

“Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”.

Por Aline D’Eça
Em 11/05/2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Almas sem alma





















As pessoas andam vazias de alma
Sem luz própria
Sem amor
Sem cor
Sem poesia
Vidas vividas sem significado
Sem sentido
Sem autonomia.
As pessoas afastam-se de sua essência,
mergulham em uma performance coletiva
e vivem de aparências...
As pessoas estão cada vez mais iguais
Mesmas roupas, reações, corpos, cabelos
Como cópias de um mesmo modelo
O simulacro...
Onde está a chama individual?
E a singularidade?
Como viver a verdadeira vida da alma,
quando se perde da própria verdade?
As pessoas estão submissas demais
à visão de mundo de outras pessoas...
Não enxergam com os próprios olhos
Não pensam com a própria mente
Não andam com seus próprios passos
Não buscam o que é melhor para si
e  aceitam que indiquem o que é melhor para elas.
As pessoas estão se conformando à palidez
de uma vida sem a cor e sem o brilho
do tesouro que têm escondido
no recôndito de suas almas.
Pessoas não são feitas no atacado
Pessoas são únicas
Pessoas são feitas para a liberdade
de estar no mundo em sua naturalidade
Pessoas são para ser
e para da verdade viver.

Por Aline D’Eça
02/05/2013

quinta-feira, 25 de abril de 2013

ONÍRICO


















Entrego-me em teus braços
Que meu corpo seja seu
Guia minh’alma  pelo espaço
Dos sonhos
Da noite
Do invisível
Onde são guardadas as memórias
Onde são contadas as estórias
Mergulha
Revela
Desnuda
Mostra-me quem sou eu
Vem que eu sigo os seus passos
Bem suave em seu abraço
Leva-me bem leve, Morfeu.


Por Aline D’Eça
Em 25 de abril de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

Liberdade ao amor




Sou a favor da liberdade.
Sou a favor do amor.
Liberdade para avaliar, escolher, errar, aprender e acertar.
Liberdade para viver.
Amor para amar.
Ninguém está preso a um destino.
Destino é um caminho que traçamos.
Apenas à felicidade somos predestinados.
E felicidade é alguma coisa individual.
Um indivíduo não é um corpo.
Ele é muito mais que isso...
Somos além dos nossos corpos.
Somos alma, somos espírito.
Espíritos não têm sexo.
Por que o amor tem que ter?
O sexo é do corpo físico.
O amor é do espírito.
O amor é algo que ultrapassa conceitos.
Definitivamente, ele não existe no preconceito.
Preconceito é a mente aprisionada.
É olhar estreito.
É causa limitada.
Para o amor não há limites.
Para a liberdade há.
Liberdade termina quando começa a do outro,
Onde começa o respeito.
Isso é o que é humano.              
Impedir a felicidade é exercitar a maldade.
Impedir o amor é falta de humanidade.
Liberdade ao amor.
Qualquer maneira de amor vale amar.

Por Aline D’Eça
Em 07/04/2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Flor de Cacto


A vida deu-me espinhos
Mas isso não me causa tristeza
Aprendi, o caminho me ensinou,
a lidar com minhas fraquezas...
Adaptei-me à aridez do solo
Ganhei força e resistência
Sei, há os que não simpatizem comigo,
com o meu jeito e aparência
Mas sigo tranquilo
Hoje sei que a minha beleza
não se encontra na delicadeza...
Em minha existência, bastam-me apenas
O sol para iluminar
A lua para admirar
E, assim, sigo sozinho
Protegendo o que há de melhor em mim...
Até que chegará o dia
em que, vencendo os espinhos,
brotará em mim bela e delicada flor
que batizarei com o nome “Amor”.

Por Aline D’Eça
Em 01/03/2013